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Re: Presidente de Quenia propoe abstinencia sexual por dois anos no pai
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Lenise Garcia
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Jul 13, 2001 14:04 PDT
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Pessoal:
Nao sei o que disse o presidente do Quenia [sei o que disse a Reuters,
inclusive aqui pela lista, mas...]. Tentei encontrar, mas nao consegui
[tambem nao pude procurar muito, por absoluta falta de tempo :-)].
Mas sei o que tem dito Kofi Annan. E o assunto e' serio demais para ser
tratado com a frivolidade com que tem sido tratado pela imprensa... A Africa
esta' de fato em situacao dramatica.
Coloco abaixo um texto que escrevi ha' algum tempo sobre o assunto.
Abracos,
Lenise
Kofi Annan, Secretário Geral da ONU, fez da guerra contra a AIDS a sua
principal prioridade pessoal. Assim o declarou ele na Nigéria em 26 de abril
deste ano. O mesmo empenho levou-o a participar ativamente da 54a Assembléia
da Organização Mundial da Saúde, de 14 a 22 de maio, em Genebra. É a
primeira vez na história que o Secretário Geral da ONU participa da
Assembléia da OMS.
Annan salienta importantes relações entre a AIDS e o subdesenvolvimento, em
mão dupla: pobreza e ignorância favorecem o espalhamento da doença; esta,
por sua vez, ceifa a vida de importante parcela da população economicamente
ativa. Mas ele também declara que "a doença, como a guerra, não é apenas um
produto do subdesenvolvimento".
Um dos aspectos prioritários a serem modificados para frear a AIDS é no seu
entender a relação social e cultural entre o homem e a mulher. Não é para
menos: na África, o número de garotas infectadas é seis vezes maior que o de
rapazes. Isto não é decorrência de fatores biológicos, mas da exploração
sexual das meninas.
Annan tem absoluta clareza de que a camisinha não é a panacéia universal.
Ele sabe que não existe "sexo seguro", uma mentira que faz com que não se
encare a problemática da AIDS sob os ângulos realmente necessários.
Enquanto Annan batalha principalmente por recursos financeiros e por
estratégias de prevenção que se direcionem principalmente ao jovem,
dando-lhe informações corretas e a oportunidade de decidir por si (inclusive
defendendo-se quando necessário), grupos de pressão trabalham por exemplo
pela proteção de "profissionais do sexo".
Fazem questão de desvincular o contágio da AIDS de aspectos comportamentais
(a não ser no que se refere a "proteger-se", entendido aqui o uso de
preservativos). Mas o vírus não faz nenhuma questão de "superar
preconceitos" e continua comportando-se como sempre, ou seja, atingindo
principalmente aquele público que a ele se expõe. Respeitar o paciente
aidético, respeitar todas as pessoas pelo fato de serem pessoas, coisa que
sem dúvida devemos fazer, é algo muito diferente de distorcer a
epidemiologia.
Nos Estados Unidos já não se fala em "safe sex", mas em "safer sex". O
eufemismo é interessante. Diante da evidência de que não existe "sexo
seguro", falam em "sexo mais seguro", em lugar de falar em "sexo menos
inseguro" - pois é disso que se trata.
A camisinha é o típico exemplo de "sexo menos inseguro" para aqueles que
querem colocar-se na situação de risco real representada pela promiscuidade.
As inúmeras pessoas já infectadas por confiarem na camisinha são um
testemunho vivo (quando não um "testemunho morto", infelizmente) de sua
ineficácia.
Os dados relativos às taxas de proteção oferecida pelos preservativos são
públicos e consistentes. Pode-se sem dúvida afirmar que o seu uso reduz o
risco da infecção, quando da relação sexual. Mas é totalmente ilusório
pensar que o eliminam, como dão a entender, em geral, as campanhas públicas
e educativas que têm sido feitas no Brasil.
Qual é, na verdade, a margem de segurança proporcionada pelos preservativos?
Parece ser entre 70 e 90%, pelo que mostram os estudos. Isto corresponde,
naturalmente, a uma margem de insegurança entre 10 e 30%.
É difícil definir se a contaminação, com uso do preservativo, deveu-se ao
mal uso ou a falha do preservativo em si. Ambas as coisas acontecem.
O látex com que são feitas as camisinhas tem uma porosidade natural, mesmo
nas marcas consideradas melhores. Estudos feitos com microscópio eletrônico
demonstraram canais de um diâmetro médio de 5 micra, que atravessam a parede
de lado a lado. A cabeça de um espermatozóide tem 3 micra e o HIV 0,1. Os
preservativos possuem, portanto, canais 50 vezes maiores que o vírus que não
são detectados pelos testes habituais de impermeabilidade. É bastante
possível que o seu único efeito seja diminuir a carga viral, não eliminá-la.
Penso que é um direito básico do consumidor ser informado disso.
No que se refere ao mal uso, a experiência internacional vem demonstrando
que "ensinar a usar" ajuda, mas também não elimina o problema. As
estatísticas mostram 3 fatores associados: adolescência, uso de drogas e uso
de álcool. Pedir a um adolescente alcoolizado que coloque corretamente um
preservativo é pedir demais.
Já é tempo de que se eduque com seriedade neste campo. Em todo o mundo já se
está percebendo que promover ou distribuir preservativos, criando uma falsa
sensação de segurança para a promiscuidade, não é o caminho adequado para
impedir o avanço da AIDS. É preciso desenvolver o respeito pela pessoa, a
começar por si mesmo.
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